Análise de mercado
A bolsa brasileira subiu 5,4% na semana em que o mundo não subiu.
Na semana passada, o Ibovespa subiu 5,4%, ou 7,3% medido em dólar. Foi a maior alta semanal desde janeiro.
No mesmo período, as bolsas europeias caíram 1,4%, o S&P 500 ficou praticamente parado, com alta de 0,1%, e o conjunto dos mercados emergentes subiu 0,2%.
Bolsa que sobe cinco por cento numa semana em que o resto do mundo não sobe está respondendo a algo que só existe aqui dentro.
O que significa descolar
Na maior parte do tempo, a bolsa brasileira segue o humor lá de fora. Quando o mercado americano cai, o dinheiro estrangeiro tende a reduzir risco, e mercado emergente é a primeira posição que sai.
Descolamento é quando essa correlação quebra por alguns dias. Não é raridade absoluta, mas também não é rotina, e por isso merece leitura.
Quando acontece, quase sempre existe um fator local forte o suficiente para superar o ambiente externo. Foi o caso.
Os dois motivos que o mercado precificou
A leitura do research do Safra atribui o movimento a dois fatores domésticos, e vale registrar os dois com a distância que eles merecem.
O primeiro é a expectativa eleitoral. Um cenário percebido como mais apertado costuma mexer com preço de ativo, porque o mercado tenta antecipar mudança de política econômica. Registramos isso como leitura de mercado, não como opinião nossa sobre candidato ou resultado.
O segundo é a desaceleração do Produto Interno Bruto. O PIB do segundo trimestre veio acima do que se esperava, mas mostrou perda de ritmo na comparação com o trimestre anterior.
Aqui está a parte contraintuitiva. Economia desacelerando costuma ser lida pelo mercado como espaço maior para o Banco Central cortar juros à frente. Juro menor à frente aumenta o valor presente do lucro futuro das empresas. Por isso um dado morno de atividade pode empurrar a bolsa para cima.
Os indicadores silenciosos confirmaram o movimento
Preço de bolsa é o número barulhento. Ele aparece na manchete. Mas na mesma semana dois indicadores mais discretos andaram na mesma direção, e é isso que dá consistência à leitura.
O real valorizou 1,3% frente ao dólar, fechando a R$ 5,13. Moeda que se valoriza costuma indicar entrada de capital, ou pelo menos menor pressão de saída.
O CDS do Brasil caiu de 120 para 114 pontos. O CDS é o custo de contratar proteção contra calote da dívida do país, e funciona como termômetro do risco percebido lá de fora. Quando ele cai, é sinal de que o estrangeiro está cobrando menos para carregar risco brasileiro.
Bolsa subindo, moeda valorizando e risco-país caindo na mesma semana formam um conjunto coerente. Quando esses três discordam entre si, a leitura fica bem mais frágil.
O que veio de fora, e não ajudou
O ambiente externo não colaborou, e é isso que torna a alta local mais notável.
Nos Estados Unidos, os dados de emprego vieram mais fortes que o esperado, com revisão para cima dos meses anteriores. Mercado de trabalho aquecido reduz o espaço do Federal Reserve para cortar juros.
E o petróleo subiu. O Brent avançou 8,76% na semana, para US$ 95,82 por barril, com as tensões no Oriente Médio. Petróleo caro é fator de inflação global, o que também empurra na direção contrária.
A bolsa brasileira subiu apesar disso, não por causa disso.
O que isso muda para quem tem patrimônio para cuidar
Uma semana não é uma tendência. Descolamento por motivo doméstico pode se sustentar, se o fator local continuar valendo, ou pode se desfazer na semana seguinte com um dado vindo de fora.
O ponto útil é outro, e é sobre método. Uma alta de 5,4% em cinco dias parece resultado, mas não muda o plano de ninguém. O que constrói patrimônio é a alocação decidida antes, e não a reação ao que já aconteceu.
Vale ler junto com o que sai nesta semana. Enquanto a bolsa andava sozinha por motivo brasileiro, o que decide o mês inteiro é a inflação americana, que sai na sexta.
Essa é a conversa que temos com quem acompanhamos: o que fazer quando o preço se move sem que a estratégia tenha mudado.
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