Agronegócio
Fertilizante mais barato, grão mais caro. Agosto devolveu poder de compra, mas não para todo mundo.
Em agosto, os preços de fertilizantes recuaram enquanto os preços de grãos, açúcar e boi subiram. A combinação melhorou a relação de troca do produtor brasileiro, que vinha desfavorável desde antes da guerra no Oriente Médio.
A melhora não foi igual para todos os insumos. Os nitrogenados, como a ureia, lideraram a recuperação. O MAP, principal fosfatado, seguiu com a pior relação de troca do grupo, mesmo com o preço em queda.
O que é relação de troca, e por que ela importa mais que o preço isolado
Relação de troca é quantos sacos de grão o produtor precisa vender para comprar uma tonelada de fertilizante. Ela existe porque preço de insumo sozinho não diz nada sobre o poder de compra de quem produz. Fertilizante caro com grão caro pode ser uma relação de troca boa. Fertilizante barato com grão mais barato ainda pode ser uma relação de troca ruim.
A Conab mantém, em seu Portal de Informações Agropecuárias, um indicador oficial de relação de troca entre os principais insumos e as principais culturas do país, cobrindo a quase totalidade da produção de grãos do Brasil. O Cepea/Esalq, dentro do Projeto Campo Futuro, também acompanha esse indicador a partir de fazendas de referência em diferentes estados.
Em agosto, o movimento favoreceu o produtor pelos dois lados da conta ao mesmo tempo: o numerador (preço do grão) subiu, e o denominador (preço do insumo) caiu, ao menos para os nitrogenados.
A ureia liderou a melhora, e a importação reagiu
Os nitrogenados, grupo que inclui a ureia e o sulfato de amônio, foram os que mais recuaram de preço em agosto. O movimento destravou parte da comercialização de fertilizante para a segunda safra, que ganha tração ao longo do inverno e depende fortemente de nitrogênio.
O comportamento da importação confirma o destravamento. Segundo dados do Comex Stat, a base oficial de comércio exterior mantida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o volume de ureia importado em julho voltou a subir com força, no maior patamar para o mês desde 2023. Ainda assim, o acumulado do ano segue abaixo do mesmo período de 2025, o que indica um primeiro semestre mais fraco sendo parcialmente compensado agora.
A Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), entidade que reúne os fabricantes e importadores do setor, também registra entregas de fertilizante ao mercado interno em ritmo de recuperação ao longo de 2026.
O MAP ficou de fora da festa
Nem todo fertilizante seguiu o mesmo caminho. O MAP, principal fosfatado usado no Brasil, é o insumo com a pior relação de troca do grupo, mesmo com o preço em queda desde o pico do ano.
O motivo passa por um insumo menos falado: o enxofre, matéria-prima central para produzir fosfatados no país. O volume de enxofre importado no primeiro semestre de 2026 ficou bem abaixo do mesmo período do ano anterior, e o preço médio pago por tonelada ficou perto de três vezes o preço de um ano antes, com o mês de junho isolado batendo quase quatro vezes o junho anterior, segundo dados oficiais de importação. Como o enxofre é peça central da produção nacional de fosfatados, esse encarecimento limita o alívio que o MAP poderia ter.
Na comparação por ponto de nutriente entregue, o SSP segue como o fosfatado mais competitivo, e o MAP, o mais caro. Isso reforça a atratividade relativa dos nitrogenados no momento atual.
O potássio segue em posição mais confortável
O KCl, principal fonte de potássio usada no país, mantém uma relação de troca mais favorável que os fosfatados. A diferença de comportamento entre os três grupos de nutrientes (nitrogênio, fósforo e potássio) mostra que "preço de fertilizante" não é uma coisa só. Cada nutriente tem sua própria cadeia de produção, seus próprios insumos críticos e sua própria dinâmica de importação, e generalizar os três num único movimento de alta ou baixa perde exatamente a informação que importa para decidir.
O que isso muda para quem tem patrimônio no campo
Existe diferença entre acompanhar o preço do insumo e entender o que está por trás dele.
A melhora de agosto é real e mensurável, mas concentrada nos nitrogenados. Quem toma decisão de compra de insumo olhando só a manchete "fertilizante caiu" corre o risco de aplicar essa leitura a um fosfatado que não seguiu o mesmo movimento. A pergunta que vale fazer não é se o fertilizante ficou mais barato, é qual fertilizante, em relação a qual grão, e com que insumo crítico por trás.
Boa parte dessa cadeia de insumo é negociada em dólar, o que conecta a decisão ao câmbio. Se a sua conversa sobre custo de produção ainda trata "fertilizante" como uma coisa só, essa é a conversa que vale destrinchar.
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