Agronegócio
A safra recorde já está no armazém. A próxima começa sob El Niño.
A Companhia Nacional de Abastecimento elevou a estimativa da safra brasileira 2025/26 para 360,75 milhões de toneladas, no 11º Levantamento de Safras, de agosto. É recorde, e 2,4% acima do ciclo anterior.
Na mesma semana, o Centro de Previsão Climática da NOAA publicou probabilidade de 93% de um El Niño muito forte entre setembro e novembro. Setembro e outubro são justamente quando o Brasil planta a soja.
As duas informações são verdadeiras ao mesmo tempo. Uma fala do que já está colhido. A outra, do que ainda nem foi plantado.
A colheita 2025/26 fechou em recorde, puxada pela soja
A soja responde por cerca de metade dos grãos do ciclo. A Conab estima 180,46 milhões de toneladas, alta de 5,2% sobre as 171,48 milhões de 2024/25. Mato Grosso aparece como maior produtor, com 51,6 milhões de toneladas, e a Bahia como o estado de maior produtividade média, com 4.260 quilos por hectare.
No milho, a conta total é de 142,96 milhões de toneladas. A primeira safra cresce 18,2%, para 29,49 milhões, enquanto a segunda recua 1,9%, para 111,03 milhões. O trigo cai 26,2%.
O recorde é nacional. A perda é regional. A própria Conab aponta clima adverso sobre o milho no nordeste da Bahia, em Sergipe e em parte de Alagoas. Média de país e resultado de fazenda são números diferentes, e só um deles paga a sua conta.
O relatório do USDA mexeu nos Estados Unidos e não mexeu no Brasil
Na edição de agosto do WASDE, divulgada em 12 de agosto, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos manteve o Brasil exatamente onde estava em julho: 186 milhões de toneladas de soja, com 118 milhões exportadas, e 134 milhões de toneladas de milho, com 44 milhões exportadas.
O que mudou foi lá fora. O estoque final de milho americano caiu de 45,47 para 41,99 milhões de toneladas, e a produtividade esperada recuou de 11,65 para 11,51 toneladas por hectare. Na soja, a produção americana subiu para 122,99 milhões de toneladas.
Ou seja: o número do Brasil ficou parado e o preço se moveu assim mesmo. Isso não é exceção, é o funcionamento normal do mercado, como já tratamos em o preço da saca é decidido longe da porteira.
O El Niño entrou no calendário da próxima safra
Segundo o Centro de Previsão Climática da NOAA, em boletim reproduzido pelo Inmet em agosto, a probabilidade de El Niño muito forte é igual ou superior a 90% nos próximos trimestres: 93% entre setembro e novembro, 95% entre outubro e dezembro e 90% entre novembro e janeiro. Há 69% de chance de ser o episódio mais intenso desde 1950, com anomalia de temperatura no Pacífico igual ou superior a 2,5 °C.
O que isso significa na prática é distribuição de chuva fora do padrão, com efeito mais citado nas regiões Sul, Norte e Nordeste.
O risco mais imediato não é quebra de produção. É calendário. Um início de chuva mais lento em áreas como Mato Grosso comprime a janela de plantio da soja e empurra a segunda safra de milho para um período pior. Vale registrar o limite do dado: probabilidade não é previsão. É a chance de um cenário, publicada com data e revisada todo mês.
O mercado já tem uma opinião, e ela é diferente para cada produto
Nas curvas de futuros da B3, milho, soja e boi gordo aparecem com curva ascendente, ou seja, o mercado paga mais pela entrega mais distante. O café aparece com curva descendente, o oposto.
No físico, o indicador do boi gordo Cepea/Esalq fechou a sexta-feira em R$ 346,75 por arroba, e o contrato de outubro na B3 ficou em R$ 354,00.
A curva não é previsão de preço. É o valor que o mercado aceita hoje para entregar depois. Ela mostra onde está o prêmio e onde está o desconto, produto por produto, e é uma informação pública que qualquer produtor pode consultar antes de decidir.
O que isso muda para quem tem patrimônio no campo
Existe diferença entre acompanhar a cotação e ter critério para decidir.
A safra recorde é caixa entrando agora, e a pergunta ali é o que fazer com esse caixa. O El Niño é risco no ciclo que ainda vai começar, e a pergunta ali é outra: quanto do custo do ano que vem já está definido, e quanto ainda depende do que acontecer. Boa parte desse custo é em dólar, o que joga a decisão para dentro do câmbio.
São duas conversas distintas, e elas raramente acontecem na mesma mesa. Se as suas ainda estão separadas, é essa a conversa que vale ter.
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