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Investir no exterior

O BDR leva a sua carteira a empresas de fora pela B3, e o dinheiro continua no Brasil.

Por Equipe Porte · Revisão técnica de Eduardo Schumann, Head de Produtos, certificação Ancord · 24 de setembro de 2026 · 10 min de leitura

BDR é um certificado negociado na B3, em reais, que representa uma ação emitida no exterior. A compra é feita pela mesma conta em que você investe no Brasil, sem remessa de dinheiro e sem conta lá fora.

O produto cresceu rápido. Segundo o anuário de BDRs da B3, publicado em 8 de dezembro de 2025, havia 835 ativos listados e 996 mil investidores. Em 2020, ano em que a CVM abriu o BDR ao investidor comum, eram 131 mil.

O resultado de um BDR soma duas variações: a da ação lá fora e a do dólar. É isso que define a conta, o imposto e o papel que ele cumpre no patrimônio.

O que é BDR, e quem pode comprar em 2026

BDR é a sigla de Brazilian Depositary Receipt. A Resolução CVM nº 182, de 11 de maio de 2023, define o BDR como certificado de depósito emitido no Brasil. O lastro são valores mobiliários emitidos no exterior.

Funciona assim: uma instituição depositária brasileira mantém as ações guardadas por um custodiante lá fora e emite os recibos que circulam na B3. Cada recibo corresponde a uma fração ou a um múltiplo da ação original. Essa proporção se chama paridade.

A mesma estrutura também aceita ETF estrangeiro como lastro. Segundo a B3, os BDRs de ETF passaram a ser viáveis em 2020, junto com a abertura ao varejo.

Patrocinado ou não patrocinado: quem montou o programa

A Resolução CVM nº 182 separa os programas em dois tipos. No patrocinado, a própria empresa estrangeira contrata a instituição depositária. No não patrocinado, a depositária cria o programa por conta própria, sem acordo com a empresa.

Todo BDR não patrocinado é de Nível I. Os patrocinados podem ser de Nível I, II ou III, e a diferença entre eles está no registro e na oferta pública.

NívelTipo de programaRegistro da empresa na CVMO que muda
IPatrocinado ou não patrocinadoDispensadoCódigo de negociação próprio. O acesso do investidor comum depende da bolsa de origem
IISó patrocinadoObrigatórioOferta pública permitida, com restrição de público
IIISó patrocinadoObrigatórioOferta pública sem restrição de público

Quem pode investir

A regra geral, no artigo 15, é que o BDR Nível I seja negociado apenas por investidor qualificado. Pela Resolução CVM nº 30, de 2021, é qualificada a pessoa com mais de R$ 1 milhão em investimentos financeiros que ateste essa condição por escrito.

O artigo 16 traz a exceção que interessa à maior parte dos investidores. O BDR Nível I pode ser comprado por investidor não qualificado quando a bolsa principal da empresa cumpre duas condições.

A primeira é estar em país cujo supervisor tenha acordo de cooperação com a CVM ou assine o memorando multilateral da Organização Internacional das Comissões de Valores. A segunda é ser classificada como "mercado reconhecido" no regulamento da bolsa brasileira aprovado pela CVM.

Existe ainda um filtro na corretora. O artigo 14 condiciona a aceitação da ordem à compatibilidade do BDR com o seu perfil de investidor.

Como o BDR funciona na prática

A compra é igual à de uma ação brasileira. Você envia a ordem pela corretora ou pelo banco, paga em reais e o BDR fica custodiado na B3, em seu nome.

Os recibos podem ser emitidos ou cancelados a pedido, com a entrega das ações no exterior, conforme o fluxo operacional publicado pela B3 em dezembro de 2025. É essa ponte que mantém o preço daqui ligado ao preço de lá.

Os pregões, porém, não coincidem por inteiro. Enquanto a bolsa de origem está fechada, o preço do BDR se forma pela oferta e pela procura na B3, e pode se afastar da paridade.

A conta: ação e dólar ao mesmo tempo

O BDR é cotado em reais, mas o ativo que ele representa é cotado em dólar. Por isso o resultado combina as duas variações, e elas podem se somar ou se anular.

Exemplo ilustrativo, construído apenas para mostrar como a conta se monta. Não descreve nenhum ativo real e não representa expectativa de retorno nem de câmbio.

Suponha uma ação negociada a US$ 200 lá fora, com paridade de 20 BDRs por ação. Cada BDR representa US$ 10. Com o dólar a R$ 5,00, cada recibo vale cerca de R$ 50. Você compra 1.000 BDRs e investe R$ 50 mil.

Na compraCenário ACenário B
Ação lá foraUS$ 200US$ 220 (+10%)US$ 220 (+10%)
DólarR$ 5,00R$ 5,40 (+8%)R$ 4,60 (-8%)
Valor de cada BDRR$ 50,00R$ 59,40R$ 50,60
Posição com 1.000 BDRsR$ 50.000R$ 59.400R$ 50.600
Resultado em reais+R$ 9.400 (+18,8%)+R$ 600 (+1,2%)

Nos dois cenários, a ação subiu 10% lá fora. No primeiro, o dólar ampliou o ganho. No segundo, consumiu quase tudo. Se a ação e o dólar caíssem juntos, as duas perdas se somariam.

Numa venda no cenário A, o imposto de 15% incidiria sobre os R$ 9.400 de lucro. São R$ 1.410, pagos por DARF até o último dia útil do mês seguinte. Corretagem e taxas da bolsa ficaram fora do exemplo.

Como chegam os dividendos

Quando a empresa lá fora paga dividendo, a instituição depositária recebe o valor, converte para reais e credita na sua conta. Você não precisa fechar câmbio.

O valor chega líquido. Nos Estados Unidos, a retenção padrão sobre dividendos pagos a estrangeiros é de 30%, segundo o IRS, a Receita americana. Um tratado entre os países poderia reduzir a alíquota, e o Brasil não tem tratado de imposto de renda com os Estados Unidos.

No Brasil, o dividendo de BDR não segue a regra dos dividendos pagos por empresas brasileiras. A Receita Federal o trata como rendimento recebido do exterior, tributado pela tabela progressiva mensal, com recolhimento pelo carnê-leão.

Em 2026, essa tabela vai de 7,5% a 27,5%, segundo a Receita Federal.

O que pesa ao concentrar a carteira num tema por BDR

O BDR dá acesso a empresas de vários setores de fora, com limites que precisam entrar na decisão.

  • Nem toda empresa da cadeia tem BDR na B3, e nem todo BDR listado está liberado para investidor não qualificado.
  • Tecnologia responde por 16% dos BDRs de empresas listados, segundo a B3. Poucas posições no mesmo tema concentram o risco num setor, numa moeda e num país.
  • Um BDR de ETF distribui a exposição entre muitas empresas de uma vez, em troca de menos controle sobre cada uma delas.

A decisão começa antes do ativo. Primeiro vem quanto do patrimônio você aceita deixar dependente de um setor, do dólar e de outra economia. A escolha do instrumento vem depois, dentro da sua carteira de investimentos.

Custos e imposto do BDR em 2026

O custo de negociar BDR é o mesmo de uma ação na B3: a corretagem, quando a instituição cobra, e as taxas da bolsa. Não há remessa. Segundo a B3, os BDRs não estão sujeitos ao IOF.

EventoComo é tributadoOnde está a regra
Venda com lucro15% sobre o ganho, sem isenção de R$ 20 mil, DARF mensalIN RFB nº 1.585/2015, art. 59; B3
Dividendo recebidoTabela progressiva mensal, de 7,5% a 27,5%, pelo carnê-leãoReceita Federal

A isenção para vendas de até R$ 20 mil por mês está no artigo 59 da Instrução Normativa RFB nº 1.585, de 2015. Ela vale para ações negociadas no mercado à vista. O BDR fica fora dela, e todo lucro na venda é tributado.

O imposto é apurado por você e pago por DARF até o último dia útil do mês seguinte à venda. Como o preço do BDR já está em reais, a variação do dólar entra no ganho sem nenhuma conta extra.

Na conta no exterior, a regra é outra. Desde 2024, o rendimento de aplicação financeira lá fora paga 15% na declaração anual, com a variação cambial dentro da base. É o que determina a Lei nº 14.754, de 2023.

Detalhamos essa conta, com exemplo numérico e os limites para abater imposto pago lá fora, no artigo sobre como o imposto sobre investimento no exterior é calculado.

BDR, ETF internacional ou conta no exterior

São três caminhos para a mesma pergunta, e cada um resolve uma parte dela. ETF internacional, aqui, é o fundo de índice listado na B3 que acompanha um índice de fora.

BDRETF internacional na B3Conta no exterior
O que você compraCertificado de uma empresa ou de um ETF de foraCota de fundo que replica um índice estrangeiroO ativo original, direto no mercado de fora
Moeda da compraReaisReaisDólar, depois do câmbio
Câmbio e IOFSem câmbio; sem IOF, segundo a B3Sem câmbio na compraIOF de 1,10% na remessa para investimento
Onde fica custodiadoB3, no BrasilB3, no BrasilInstituição no exterior
Imposto sobre o lucro15% na venda, DARF mensal15% na venda, DARF mensal15% na declaração anual, câmbio na base
DividendosTabela progressiva, carnê-leão15% retido na fonte15% na declaração anual
O que dá para comprarOs programas listados na B3Os índices com ETF listadoO universo do mercado de fora
O dinheiro sai do BrasilNãoNãoSim

O BDR serve para escolher empresas específicas sem sair da B3. O ETF internacional compra um índice inteiro com uma única ordem. O lucro na venda do ETF também paga 15%, sem a isenção de R$ 20 mil, segundo a B3.

A conta no exterior é o único dos três caminhos em que o dinheiro fica, de fato, em dólar e fora do país. Ela pede mais estrutura: câmbio, declaração em outra moeda e IOF de 1,10% na remessa para investimento, pelo Decreto nº 12.499, de 2025.

Em troca, dá acesso ao mercado inteiro, e não só ao que tem programa na B3. Lá, o dividendo é rendimento pelo artigo 3º da Lei nº 14.754 e entra nos 15% anuais.

Quando o BDR resolve mal a pergunta

Há situações em que o BDR não é o instrumento que responde ao objetivo.

  • Você tem ou terá despesa em dólar lá fora, como estudo, imóvel ou mudança de país. O BDR é vendido em reais, e o câmbio continuaria por fazer.
  • O plano é receber dividendos de empresas de fora com regularidade. Pela tabela progressiva, esse fluxo pode pagar mais imposto que os 15% da conta no exterior.
  • O ativo que você procura não tem BDR, tem pouco volume na B3 ou está restrito a investidor qualificado.

Há também a possibilidade de o programa ser encerrado. A Resolução CVM nº 182 obriga a bolsa a manter alertas sobre esse risco e procedimentos que a instituição depositária precisa seguir nesse caso.

O que o BDR muda para quem quer parte do patrimônio em dólar

Ter patrimônio em dólar pode significar duas coisas. Uma é estar exposto à moeda: o valor em reais sobe quando o dólar sobe e cai quando ele cai. A outra é ter dinheiro em dólar, disponível fora do país.

O BDR entrega a primeira. A posição fica na B3, sob a regulação brasileira, e a venda é paga em reais. Para uma parte dos objetivos, essa exposição basta.

A segunda exige conta no exterior e passa pelas regras de câmbio. Ela ganha sentido quando existe um uso para o dólar lá fora, e não apenas a vontade de acompanhar a moeda.

A escolha depende de para que serve esse dólar, em quanto tempo e em que proporção do patrimônio. Essa conversa começa no planejamento financeiro e continua na área de câmbio e investimentos internacionais.

Exposição ao dólar e dinheiro em dólar são coisas diferentes, e é por essa distinção que começamos quando o assunto é investir fora do Brasil.

Para saber qual desses três caminhos conversa com o seu patrimônio, fale com a nossa equipe.

Perguntas frequentes

O que é BDR?

BDR, sigla de Brazilian Depositary Receipt, é um certificado negociado na B3 que representa ação ou outro valor mobiliário emitido no exterior. Uma instituição depositária guarda os ativos originais lá fora e emite os recibos no Brasil. Você compra em reais, pela corretora, e o resultado acompanha a ação e o dólar.

Qualquer pessoa pode investir em BDR?

Depende do programa. Pela Resolução CVM nº 182, o BDR Nível I é restrito a investidor qualificado. A exceção vale quando a bolsa principal da empresa é mercado reconhecido e fica em país com acordo de cooperação com a CVM. A corretora também confere se o BDR é compatível com o seu perfil.

BDR paga dividendos?

Paga, quando a empresa de origem distribui. A instituição depositária converte o valor para reais e credita na sua conta. Ele chega descontado do imposto retido na origem, que é de 30% nos Estados Unidos. No Brasil, a Receita Federal tributa esse dividendo pela tabela progressiva mensal, com recolhimento pelo carnê-leão.

Qual é o imposto sobre BDR?

O lucro na venda paga 15% de imposto de renda, recolhido por DARF até o último dia útil do mês seguinte. O BDR não tem a isenção para vendas de até R$ 20 mil por mês, que vale só para ações. Os dividendos seguem a tabela progressiva, de 7,5% a 27,5% em 2026.

Qual é a diferença entre BDR e ETF internacional?

O BDR representa uma empresa específica, ou um ETF estrangeiro. O ETF internacional listado na B3 é um fundo que replica um índice de fora e reúne muitas empresas numa única cota. Os dois são negociados em reais, sem remessa, e o lucro na venda paga 15%, sem a isenção de R$ 20 mil.

Como investir na bolsa americana sem sair do Brasil?

Há três caminhos. Pela B3, você pode comprar BDRs de empresas americanas ou ETFs que acompanham índices dos Estados Unidos, sempre em reais. O terceiro é abrir conta no exterior, remeter recursos com IOF de 1,10% e comprar os ativos diretamente, com imposto de 15% na declaração anual.

Uma leitura ajuda a organizar a pergunta. A decisão exige contexto.

Converse com a equipe para entender como este tema se relaciona com o seu momento e com o restante do patrimônio.

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