Pular para o conteúdo

Agronegócio

A safra de verão 2026/27 começou sob El Niño forte, e o risco não é o mesmo em cada região

Por Equipe Porte · Revisão técnica de Eduardo Schumann, Head de Produtos, certificação Ancord · 1 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Até 18 de setembro de 2026, o Brasil tinha 0,5% da área de soja semeada, segundo a Conab. A média dos últimos cinco anos para a mesma data é 0,9%.

A primavera começou em 22 de setembro. É a estação que abre a semeadura da safra de grãos de verão em boa parte do país. Ela chegou com um El Niño que a NOAA espera ver alcançar intensidade muito forte ainda em 2026.

O que é El Niño, e por que ele entra no calendário agora

El Niño é o aquecimento fora do normal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, na definição do Inmet. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e redistribui onde a chuva cai.

Na discussão de 10 de setembro de 2026, o Climate Prediction Center da NOAA registrou anomalia de 1,8 °C acima da média na região Niño 3.4 em agosto. A mesma nota estima chance acima de 90% de o episódio alcançar intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o começo de 2027. E calcula 75% de chance de ele superar todos os eventos registrados desde 1950.

O calendário faz o resto. A semeadura da soja é o que abre a safra de verão. Em Mato Grosso, o maior produtor, o plantio está liberado desde 7 de setembro de 2026, quando terminou o vazio sanitário.

Em 15 de setembro, a Conab projetou 181,64 milhões de toneladas de soja em 2026/27, alta de 0,7% sobre o ciclo anterior. A área sobe 1,4%, para 49,31 milhões de hectares, e a produtividade média projetada cai 0,8%.

O risco muda de estado para estado

O prognóstico de outubro a dezembro, divulgado em 22 de setembro, separa o país em dois. O Inmet prevê chuva acima da média no Sul, em Mato Grosso do Sul e no sul de Goiás. Também em São Paulo, no Rio de Janeiro e no centro-sul de Minas Gerais. No Sul, os acumulados podem superar a média histórica do trimestre em até 200 milímetros.

Para o Sudeste e para a parte sul do Centro-Oeste, esse volume favorece o início das lavouras depois do atraso do ciclo passado. No Sul, o mesmo volume vira o problema. Solo encharcado segura máquina, aumenta pressão de doença e atrasa a semeadura, principalmente em Santa Catarina e no Paraná.

O outro lado do mapa é a falta. O mesmo prognóstico aponta chuva abaixo da média em Mato Grosso, no Matopiba e em boa parte do Norte, com déficit que pode chegar a 200 milímetros. No Matopiba, formado por áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a questão não é ausência de chuva, e sim irregularidade.

Mato Grosso é o caso mais visível agora. Até 18 de setembro, o estado tinha 0,6% da área semeada, contra média de 1,0% em cinco anos, segundo a Conab. O trabalho se concentra em área irrigada, porque a umidade do solo em sequeiro ainda não sustenta o plantio.

A distribuição da chuva pesa tanto quanto o volume

Média de região esconde o que acontece dentro dela. No informativo semanal de 21 de setembro, o Inmet previu até 50 milímetros no sul de Mato Grosso do Sul para os sete dias seguintes. No mesmo período, o tempo deve ficar predominantemente estável no nordeste de Mato Grosso e no norte de Goiás. Os dois são Centro-Oeste.

O mesmo vale para a medição do plantio. Para Mato Grosso na mesma data, o Imea apurou 1,15% da área semeada, acima da média de cinco anos do próprio instituto, de 0,94%. A Conab, com metodologia própria, registrou 0,6%. Quem lê só um dos dois não enxerga essa distância.

Volume acumulado dentro da média também não resolve sozinho. Chuva concentrada em poucos dias, seguida de veranico na emergência, produz falha de estande com o total do mês fechando normal. Veranico é o período seco no meio da estação chuvosa.

A soja de hoje decide a janela do milho de segunda safra

O milho de segunda safra é semeado depois da colheita da soja, na mesma área. A Conab projeta 18,48 milhões de hectares e 113,2 milhões de toneladas para ele em 2026/27, dentro de um total de 148 milhões de toneladas de milho. É perto de três quartos do milho brasileiro.

A conta é de calendário. Quanto mais cedo a soja entra, mais cedo ela sai. Com isso, cresce a parcela do milho que cabe na janela de menor risco climático do Zarc, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático. Semeadura atrasada empurra parte do milho para fora dessa janela.

O El Niño mexe nas duas pontas. No começo, pode atrasar a soja onde falta umidade. No fim, uma antecipação do término das chuvas encurta o período útil do milho. Foi por isso que o Imea registrou, em 18 de setembro, produtores antecipando a soja onde a janela permitia.

O que isso muda para quem tem patrimônio no campo

Risco climático não é novidade para quem planta. Ele está no calendário todo ano, com nome e data. O que muda de um ciclo para outro é a distribuição desse risco pelo mapa, e 2026/27 chega com uma distribuição bem desigual.

Ninguém acerta a previsão do clima com meses de antecedência. A conversa que sobra é sobre caixa, prazo e critério. Quanto do custeio já está comprometido, quando entra a receita da soja e do milho, e o que acontece com esse fluxo se a colheita atrasar.

Já tratamos aqui de safra recorde e El Niño na próxima safra e de por que o preço da saca é decidido longe da porteira. A primavera junta os dois assuntos na mesma janela de decisão. No Espírito Santo, o mesmo calendário aparece na florada do café conilon, que também depende de como a chuva se distribui.

Liquidez planejada e prazo casado com o ciclo da lavoura mantêm a decisão com você, em vez de deixá-la com o clima. É essa conta que fazemos quando montamos um planejamento financeiro com produtores e empresas do agro.

O Panorama do Agro, nosso material em PDF com safra, clima e calendário, está na biblioteca de materiais.

Perguntas frequentes

Quando começa o plantio da soja da safra 2026/27?

A semeadura abre com a primavera, que começou em 22 de setembro de 2026. Em Mato Grosso, o plantio está liberado desde 7 de setembro, quando terminou o vazio sanitário. Até 18 de setembro, o Brasil tinha 0,5% da área semeada, abaixo da média de cinco anos de 0,9%, segundo a Conab.

O que é El Niño e como ele afeta a soja?

El Niño é o aquecimento fora do normal das águas superficiais do Pacífico equatorial, na definição do Inmet. Ele altera a circulação da atmosfera e redistribui a chuva. No Brasil, costuma elevar os volumes no Sul e reduzi-los no Norte e no Nordeste, o que muda o risco da lavoura conforme a região.

Qual região tem mais risco na safra de verão 2026/27?

O risco é de natureza diferente em cada uma. No prognóstico de outubro a dezembro de 2026, o Inmet prevê excesso de chuva no Sul, com até 200 milímetros acima da média do trimestre. Prevê falta em Mato Grosso, no Matopiba e em boa parte do Norte. Sudeste e sul do Centro-Oeste ficam no meio.

Por que o plantio da soja mexe com o milho de segunda safra?

O milho de segunda safra é semeado depois da colheita da soja, na mesma área. Quanto mais cedo a soja sai, maior a parcela do milho que cabe na janela de menor risco climático do Zarc. A Conab projeta 113,2 milhões de toneladas nessa segunda safra em 2026/27.

Quanto o Brasil deve colher de soja em 2026/27?

A Conab projetou 181,64 milhões de toneladas em 15 de setembro de 2026, alta de 0,7% sobre o ciclo anterior. A área sobe 1,4%, para 49,31 milhões de hectares, e a produtividade média cai 0,8%. O número é projeção e muda a cada levantamento, conforme o clima evolui.